quarta-feira, 22 de maio de 2013



" Meus olhos têm telescópios espiando a rua,
espiando minha alma
longe de mim mil metros..."


JOÃO CABRAL DE MELO NETO



" Não busco uma forma de exílio nos livros. Se pratico a leitura como a arte
de me transportar mentalmente para outro lugar, não é com a finalidade
de mudar de horizontes, mas, ao contrário, de me defrontar com meus
símbolos mais íntimos. Pois, uma vez mais, é no espaço em que com seriedade
se convulsionam meus semelhantes que me sinto exilado.
Certamente executo os mesmos gestos que eles, dirijo-ma a eles em sua língua,
mas isso me custa algum esforço, o mesmo que sentiria se estivesse
perdido num país que não é o meu. A cada vez que fecho um livro me sinto
como um fugitivo azarado, lançado
como por maldição num lugar do qual é impossível sair..."



Frédéric Schiffter



Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.





Fernando Pessoa

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jeff Faust
" O caráter destrutivo não vê nada de duradouro.
Mas eis precisamente por que vê caminhos por toda parte
- o que existe ele converte em ruínas, não por causa das ruínas,
mas por causa do caminho que passa através delas."
 
 
Walter Benjamin

" Os lógicos e os linguistas não gostam das linguagens naturais,
os sociólogos não gostam da história, os ideólogos não gostam da sociedade civil,
os geneticistas nem sempre gostam dos códigos genéticos reais e pensam em
modificar as espécies de trigo e as espécies de homens;
é possível até que um  belo dia os astronautas passem a já não gostar da Terra.
Para todos eles a razão proveio da "racionalização", obedientes nisto ao princípio
segundo o qual o geral sempre quis colocar no mundo realidades conformes à sua perfeição.
Sob o imério dos sentidos gerais, que sustêm os conhecimentos científicos que
conseguimos adquirir, o mundo pertence hoje ao laboratório, à proveta, ao transplante,
aos satélites artificiais e à instalçaõ do homem no cosmos,
e torna-se o lugar da planificação, da centralização
e da manipulação dos destinos humanos."
 
 
 
Constantin Noica
José David Alfaro
este ogro que vos fala
esta voz de tom agreste
esta sala sem paredes
é o espaço que me veste

este céu que às vezes falta
este chão que às vezes cede
esta falta de espaço
este pedaço, quanto mede?

este ogro que se cala
não reconhece o que vê
não esquece como era
onde era e porque

esta boca tem um nome
silenciado em lábios duros
esta boca cospe flores
se mastiga pedregulho

este ogro se desculpa
por viver em terra estranha
seu tempo é muito curto
sua pressa é tamanha

seus olhos são os olhos
de um barco em tempestade
de um náufrago agarrado
a um amor pela metade

um travesseiro com teu cheiro
seria a ponte para o dia
seria noite a vida inteira
se não houvesse travessia

...é noite a vida inteira
...não existe travessia
este ogro acha graça
porque vaga sem destino

porque paga com silêncio
o que lhe cobram as palavras
este ogro abre os olhos
estes olhos de menino

o que é um horizonte?
este ogro se pergunta
são coisas lá distantes
ou o seu ponto de vista?

Humberto Gessinger

sábado, 11 de maio de 2013


" A leitura nos liberta de nós mesmos.
As metamorfoses propiciadas pela leitura são indispensáveis a um escritor.
Ele só encontra realmente o caminho de volta para si mesmo
após ter sido fortemente atraído por outros."
 
 
 
Elias Canetti
Cayteno De Arquer-Buigas
"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro,
depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.
Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove
a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor
a minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética ou por assunto.
 
  Há tempos encontrei certo coronel num corredor sombrio do hospital do Exército.
Ele afirmou que estivera comigo quando ainda era terceiro-sargento, mas seu rosto
na penumbra não me dizia grande coisa. Nem decerto o meu a ele, que me reconheceu
pelo nome. Mas aí a minha lembrança não era recíproca, e nesses casos, para não
magoar o próximo, a gente costuma dizer, ah, sim, claro, como vai, e fica por isso
mesmo.
 
Porque dá preguiça vasculhar a memória o tempo inteiro, mas ele acreditou que
eu me empenhava em recordá-lo, e quis colaborar. E só me atrapalhou mais ainda ao dizer,
em francês, que quarenta anos passam voando, não entendi se citava algum poeta.
Ia-me despedir quando ele mencionou as provas de artilharia na Marambaia,
e não sei porque não o fez desde o início, num instante tudo se iluminou.
Seria mesmo inútil revirar arquivos de nomes e rostos, porque minha memória tinha
guardado o sargento na paisagem. Era um dia de sol, e do alto da duna, eu contemplava
o trecho mais delgado da restinga, uma linha branquíssima de areia que o oceano
não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo maternal ou por sadismo.
As ondas espumavam simultaneamente, à direita e à esquerda da faixa de areia,
era como uma praia diante de um espelho. "
 

Chico Buarque -Leite Derramado
Johanes Greeness

INICIAÇÃO

 
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo...

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.

Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :

Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.

Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.

Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais....

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.

Não 'stás morto, entre ciprestes...
Neófito, não há morte.
 
 
FERNANDO PESSOA


segunda-feira, 6 de maio de 2013


 " Inescapavelmente, há uma dimensão histórica em qualquer ato de dizer a verdade...
Não é que a história diga a verdade (ou a disfarce, ou a determine),
mas sim que estamos inelutavelmente envolvidos com a história
em qualquer tentativa de dizer a verdade."
 
 
 
Caryl Johnston

 " Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade
do que os flagelos causados pelas épocas ardentes;
a lama é mais agradável que o sangue, há mais suavidade no
vício que na virtude, mais humanidade na depravação que no rigorismo...
os oportunistas salvaram os povos, os heróis os arruinaram."
 
 
Emil Cioran - Breviário da Decomposição
Marcel Nino Pajot
ROSTO

Rosto nu na luz direta.


Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.


Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.


Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem


Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.


Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN