terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Sono de Percival

O justo é injusto, o injusto justo é.
Débil julguei ouvir tua voz a desoras.
Um lamento lento, por certo a voz
do vento. Secarei, talvez como o feno,
não dormindo, nem noites, nem dias.

Soluço abafado, sussurro apenas
perceptível após a brancura
obliterante do relâmpago,
quando cessa o fragor que o excede
e a chuva cai e tudo se cala,

terei ouvido tua voz. Secarei,
talvez, como o feno. O justo
é injusto, o injusto justo é.
Procurei no horto e no deserto,
sob o cavo ruído das torrentes

subterrâneas, na imemorial
pedra circular com que o humano
terror balizou os horizontes
do tempo. No espectro da rosa
dos ventos, no vento espectral

da rosa. Seria a voz do vento,
pintura da minha imaginação
doente, a vigília do sono,
a febre dos sentidos,
não dormindo noites e dias

para ouvir tua voz. O justo
é injusto, o injusto justo é
para ouvir tua voz.
Secarei como o feno.
Para ouvir tua voz.

Rui Knopfli

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


 " Somos criaturas físicas que percebem e conhecem o mundo por meio do corpo,
e mesmo assim passamos a maior parte do nosso tempo em um universo
de informação sem materialidade.
Ele não vive conosco, nós apenas o observamos por uma tela de
duas dimensões.
Em um nível muito profundo da consciência, isso é árduo e esgotante."
 
 
William Powers
Joana Lemanska
 " Uma das hipóteses mais defendidas pela cultura moderna é que, quando uma tecnologia nova surge, automaticamente, torna obsoletas as antigas que faziam basicamente a mesma coisa. Um caso clássico é a charrete. Quando se trocou carruagens por automóveis, no começo do século XX, praticamente deixou de haver necessidade de charretes, e elas desapareceream. Contudo, nem sempre é assim. Tecnologias mais antigas costumam sobreviver à introdução das mais novas, quando ainda são capazes de ter função de um modo que os novos aparelhos não podem fazer. O melhor exemplo disso é a porta com dobradiças. Veja um filme de ficção científica e preste atenção. Vai perceber que casas, escritórios e naves espaciais do "futuro" quase sempre têm portas de correr. Os cineastas sempre acreditaram que no futuro não haverá mais portas com dobradiças; porque dobradiças são algo careta e desconfortável, cheia de rangidos, enquanto portas de correr economizam espaço, são mais elegantes e mais futuristas. Dessa forma, no pensamento popular as dobradiças estão sempre à beira da extinção.
 
Mas por que então as portas de dobradiças continuam conosco? Porque, embora as portas de correr sejam esteticamente atraentes, na verdade elas apenas deslizam para lá e para cá, enquanto que as portas com dobradiças são mais interessantes exatamente por causa da forma como ocupam espaço, e se movimentam nele. É possível sair detrás de uma porta dessas e surpreender alguém. É possível bater muito alto uma porta com dobradiças para extravasar a raiva ou fechá-la com muito cuidado para não acordar alguém. Uma porta com dobradiças é uma ferramente expressiva. Ela responde ao nosso corpo de uma forma que as portas de correr não respondem."
 
 
 
 
 
 
WILLIAM POWERS - O BLACK BERRY DE HAMLET
Jean Delville
                                  Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro. 


Nuno Júdice