segunda-feira, 29 de outubro de 2012
"Juízos, juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser,
em última instância, verdadeiros: não possuem outro valor senão o
de sintomas – em si, tais, juízos são imbecilidades.
É, pois, necessário estender os dedos para tentar apreender essa fineza
extraordinária que reside no fato de que o valor da vida não pode
ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte, e até mesmo objeto
de litígio; não por um morto, por uma outra razão.
Da parte do filósofo, ver no valor da vida um problema significa
uma dúvida contra ele, um ponto de interrogação em relação
à sua sabedoria, uma falta de sabedoria."
Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado
No entanto eu sou maior…Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior…Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem-nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Mário de Andrade
No entanto eu sou maior…Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior…Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem-nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Mário de Andrade
domingo, 21 de outubro de 2012
“Toda literatura do passado terá sido destruída. Chaucer,
Shakespeare, Milton, Byron
existirão apenas em suas versões em Novafala, em que,
existirão apenas em suas versões em Novafala, em que,
além de transformados
em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório
em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório
com o que eram antes.
A literatura do partido será outra. Os slogans serão outros.
A literatura do partido será outra. Os slogans serão outros.
Como poderemos ter um
slogan como “liberdade é escravidão” quando o conceito
slogan como “liberdade é escravidão” quando o conceito
de liberdade for abolido?
Todo o clima do pensamento será diferente.
Todo o clima do pensamento será diferente.
Na realidade não haverá pensamento
tal como o entendemos hoje.
tal como o entendemos hoje.
Ortodoxia significa não pensar
– não ter necessidade de pensar.
– não ter necessidade de pensar.
Ortodoxia é inconsciência.“
George Orwell -"1984"
O amor é o amor
O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!
Alexandre O´Neill
O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!
Alexandre O´Neill
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
"Falsos deuses são as duas coisas: tanto testemunhos como produtores
da vã procura de uma identidade que nos salve.
Enquanto não encararmos realmente de frente o desamor que nos rodeia,
não seremos capazes de chegar a uma identidade própria e firmemente enraizada
no que realmente somos. Se esse for o caso, a identidade tem de basear-se numa
trama exterior: psicodramas e posturas ostensivas em que posses de sentimentos
e valores tomam o lugar de uma identidade interior. Isso empurra as pessoas
para a dependência de estruturas externas, tal como o estatuto social, posse,
ordem, dever e obediência.
Quando essas estruturas começam a vacilar devido à sua dinâmica própria,
as pessoas que edificaram a sua identidade sobre elas desagregam-se.
É esse o solo que não só permite como favorece os falsos deuses!
O divino, salvador, que o Homem procura,
é procurado no exterior da própria pessoa."
Arno Gruen - Falsos Deuses
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura.
Os teus pecados,
as reivindicações, as explicações –
menos o dar de ombros e os risos contidos
mas todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem, às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: eternamente
esse gosto de nunca e de sempre.
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura.
Os teus pecados,
as reivindicações, as explicações –
menos o dar de ombros e os risos contidos
mas todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos
Pois bem, às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: eternamente
esse gosto de nunca e de sempre.
Mário Quintana
terça-feira, 2 de outubro de 2012
"Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
.
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga
contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher
deseja receber o peso do corpo do masculino.
O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais
intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima
da terra está nossa vida e mais ela é real e verdadeira.
.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano
se torne mais leve que o ar, com que ele voe, se distancie da terra,
do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos
sejam tão livres quanto insignificantes.Então, o que escolher?
O peso ou a leveza? (...) Uma coisa é certa.
A contradição pesado-leve é a mais misteriosa
e a mais ambígua de todas as contradições."
.
MILAN KUNDERA
nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres ver-me fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e.e. cummings
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres ver-me fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e.e. cummings
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