Sou homem: duro pouco e é enorme a noite. Mas olho para cima: as estrelas escrevem. Sem entender compreendo: Também sou escritura e neste mesmo instante alguém me soletra.
OCTAVIO PAZ
"Um naufrágio. Um atol. Sozinho com a tiritante filha de uma passageira que se afogou. Minha querida, isto é só uma brincadeira! Que maravilhosas aventuras eu fantasiava, sentado no duro banco de alguma pracinha, enquanto fingia estar imerso na leitura de um trêmulo livro. As ninfetas brincando em torno do palácio intelectual, como se ele fosse uma estátua bem conhecida ou mera extensão da sombra rendada de alguma velha árvore. Certa vez, um espécime de irretocável beleza, vestindo uma túnica enxadrezada, plantou com intrépido seu pé fortemente armado e, quase roçando em mim, esticou os braços nus e esguios para apertar a correia do patim de rodas; e eu me dissolvi ao sol, o livro servindo como folha de parreira, quando aqueles cachos castanhos-claros caíram sobre o joelho esfolado, e a sombra de que eu era parte palpitou e se derreteu sobre sua radiosa perna, bem juntinho a meu rosto camaleônico."
Lolita - Vladimir Nabokov
PAPÉIS NA CALÇADA
E eles queimam no asfalto molhado os reflexos das inúmeras luzes da rua. Piscando vivem e morrem e vivem na brilhante esfera escura de um planeta solitário. Destemido, o vento insufla os lençóis líquidos esboçando imagens abstractas. Por outro lado, nós buscamos abrigo como moscas no inverno, moscas aprisionadas na amarga neve. E quem irá escutar isto, e quando, e como para explicar a súbita alquimia ao espelho: este monstruoso pedinte? Talvez a exacta pessoa que todos os dias atravessa a rua ao mesmo tempo, aí está quem. Lembramo-nos de dias e casas, de quando éramos amantes da verdade.
Molharam-se, os meus papéis caídos na calçada, tinta turva voou das palavras, e a partir de agora, memórias daqui para o futuro.
Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar onde ninguém vai.
Fernando Pessoa