segunda-feira, 13 de junho de 2011

Leonid Afremov

IRMANDADE

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

OCTAVIO PAZ

"Um naufrágio. Um atol. Sozinho com a tiritante filha de uma
passageira que se afogou.
Minha querida, isto é só uma brincadeira!
Que maravilhosas aventuras eu fantasiava, sentado no duro banco
de alguma pracinha, enquanto fingia estar imerso na leitura de
um trêmulo livro.
As ninfetas brincando em torno do palácio intelectual, como se ele
fosse uma estátua bem conhecida ou mera extensão da sombra rendada
de alguma velha árvore. Certa vez, um espécime de irretocável
beleza, vestindo uma túnica enxadrezada, plantou com intrépido seu
pé fortemente armado e, quase roçando em mim, esticou os
braços nus e esguios para apertar a correia do patim de rodas;
e eu me dissolvi ao sol, o livro servindo como folha de parreira,
quando aqueles cachos castanhos-claros caíram sobre o
joelho esfolado, e a sombra de que eu era parte palpitou e se
derreteu sobre sua radiosa perna, bem juntinho
a meu rosto camaleônico."



Lolita - Vladimir Nabokov
PAPÉIS NA CALÇADA

E eles queimam no asfalto molhado
os reflexos das inúmeras luzes da rua.
Piscando vivem e morrem e vivem
na brilhante esfera escura de um planeta solitário.
Destemido, o vento insufla os lençóis líquidos
esboçando imagens abstractas.
Por outro lado, nós buscamos abrigo
como moscas no inverno,
moscas aprisionadas na amarga neve.
E quem irá escutar isto, e quando, e como
para explicar a súbita alquimia ao espelho:
este monstruoso pedinte?
Talvez a exacta pessoa
que todos os dias atravessa a rua
ao mesmo tempo, aí está quem.
Lembramo-nos de dias e casas,
de quando éramos amantes da verdade.

Molharam-se, os meus papéis caídos na calçada,
tinta turva voou das palavras,
e a partir de agora,
memórias daqui para o futuro.

RIKARDO ARREGI