terça-feira, 12 de julho de 2011
A CARTA
Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.
MARINA TSVETAEVA
terça-feira, 5 de julho de 2011
A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentiroso cria ou recria.
Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é tênue e delicada.
Mas as fronteiras entre as palavras são todas tênues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer
que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende
ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou
duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela
imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de
aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não
se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém.
Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pomos pedras
ou palavras: sinônimo de construção. Ou destruição. Ou ação.
Ana Hatherly



