terça-feira, 12 de julho de 2011

Paul Signac

A CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.

MARINA TSVETAEVA


terça-feira, 5 de julho de 2011

" Deve-se escapar à alternativa do fora e do dentro; é preciso estar nas fronteiras."


FOUCAULT

Pablo Picasso

A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentiroso cria ou recria.

Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é tênue e delicada.

Mas as fronteiras entre as palavras são todas tênues e delicadas.

Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer

que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.

A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende

ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.

Pelo menos ainda.

Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou

duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela

imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de

aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não

se veja o movimento ou o espaço ou a duração.

Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém.

Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.

Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pomos pedras

ou palavras: sinônimo de construção. Ou destruição. Ou ação.



Ana Hatherly