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UMA FACE NA ESCURIDÃO
A vida ia tomando forma e cor, rompia...
Eu estava tão presa a ti, que não sabia
Onde acabava eu e começava tu.
Mas ela mesma, a vida, a borbulhar selvagem
No uivo dos animais, no viço da folhagem
- Em tudo, no teu corpo e no meu corpo nu -
Ela mesma nos separou. As cordilheiras
Afundaram no oceano. As vozes derradeiras
Dos bichos que no abismo iam todos morrer.
Enchiam-me de assombro... E conheci na treva
A maior dor. A dor da força que me leva
Para longe de ti. Meu ser pelo teu ser
Clamou... Clamou debalde. Em mim subitamente
Tudo descorou, tudo envelheceu. Ao quente
Meu coração de outrora, hoje tarde reflui
Um sangue pobre em que já não palpita nada.
Como a planta sem ar, murchei. Branca e gelada,
Não sou mais do que uma lembrança do que fui.
Embora! Testemunhei eu só, aquela
Que trouxe a vida em si mais luminosa e bela
Do que nunca a sonhaste, a glória deste amor
Terás em mim, aquela que foi tua, ora uma estranha,
A única face que te observa e te acompanha
Da funda escuridão... Cada dia maior...
MANUEL BANDEIRA
" Um sonho é tão mais profundo quanto mais louco ele parece."
Freud
Esta vida tão improvável que nos é dada, cabe a nós não a desperdiçar.
A vida não é um destino, é uma aventura.
Ninguém escolheu nascer; ninguém vive sem escolher.
Cada qual é inocente de si, mas responsável pelos seus atos.
E responsável, portanto, ao menos em parte, por aquilo que se tornou.(...)
É forjando que alguém se torna forjador. É bebendo que alguém se torna alcoólico.
É realizando acções virtuosas que alguém se torna virtuoso.
"Fazer", dizia Lequier, "e, fazendo, fazer-se".
Isso não fará de nós outra pessoa, o que ninguém consegue.
Mas impede de nos resignarmos rápido demais ao que somos,
o que ninguém deve fazer.
André Comte-Sponville - "A vida humana"
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
MIGUEL TORGA