sábado, 11 de maio de 2013

INICIAÇÃO

 
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo...

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.

Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :

Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.

Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.

Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais....

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.

Não 'stás morto, entre ciprestes...
Neófito, não há morte.
 
 
FERNANDO PESSOA


segunda-feira, 6 de maio de 2013


 " Inescapavelmente, há uma dimensão histórica em qualquer ato de dizer a verdade...
Não é que a história diga a verdade (ou a disfarce, ou a determine),
mas sim que estamos inelutavelmente envolvidos com a história
em qualquer tentativa de dizer a verdade."
 
 
 
Caryl Johnston

 " Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade
do que os flagelos causados pelas épocas ardentes;
a lama é mais agradável que o sangue, há mais suavidade no
vício que na virtude, mais humanidade na depravação que no rigorismo...
os oportunistas salvaram os povos, os heróis os arruinaram."
 
 
Emil Cioran - Breviário da Decomposição
Marcel Nino Pajot
ROSTO

Rosto nu na luz direta.


Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.


Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.


Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem


Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.


Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN