segunda-feira, 16 de maio de 2016

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
sem saber o que dizer,
Quero escrever uma coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.




Dante Milano

domingo, 11 de janeiro de 2015


"Prudente: um homem que acredita em dez por cento daquilo que ouve,
num terço daquilo que lê e em metade daquilo que vê."
 
 
Ambroise Bierce


«Não se trata aqui do homem conhecido das escolas, da economia política ou da estatística,
nem do homem que aos milhões anda pela rua e não tem mais importância do que a areia
ou a espuma dos mares: pouco adiantam alguns milhões a mais ou a menos; são material
e nada mais. Não, nós falamos aqui do homem no sentido elevado do termo, do largo caminho
da encarnação humana, do homem verdadeiramente real, dos imortais. O génio não é tão
raro como em geral nos parece, nem tão frequente como pretendem as histórias literárias,
a história universal e até mesmo os jornais.(…) É tão estranho e entristecedor que homens
de tais possibilidades surjam como lobos da estepe e com “duas almas, ai!” e que mostrem
tamanha afeição cobarde ao burguês. Um homem capaz de compreender Buda, um homem
que tem noção dos céus e dos abismos da natureza humana, não deveria viver num meio
em que domina o senso comum, a democracia e a educação burguesa. Só por cobardia continua
a viver nele, e quando as suas dimensões o oprimem, quando a estreita cela do burguês se
torna demasiado apertada, ele atribui tudo isto ao ‘ ‘lobo” e não quer aperceber-se de que,
às vezes, o lobo é a sua parte melhor. Tudo o que há de feroz dentro de si ele atribui-o ao lobo
e tem-no por mau, perigoso, o terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, crê-se um artista
e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás do lobo, vivem no seu
interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde é lobo; que dentro de si habitam
também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco e a ave-do-paraíso, e que todo este mundo é
um éden cheio de milhares de seres, formosos e terríveis, grandes e pequenos, fortes e
delicados, mundo asfixiado e cercado pelo mito do lobo — tanto como o verdadeiro homem
que nele há é asfixiado e preso apenas pela sua aparência de homem, pelo burguês.»


Hermann Hesse  -  O Lobo da Estepe

Franck Dicksee
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
  
 
MANUEL BANDEIRA