quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
Não é preciso deixar contida a tristeza,
Para que a vida, que acaba mal começa,
Tenha tempo de se acabar.
Não quero amor, não quero amar....
Não quero nenhuma promessa
Nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
Nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me
Dessa aventura mal entendida
Sobre os espelhos sem saída
Em que jaz a minha face impressa.
Chorar sem protesto.
Chorar.




CECILIA MEIRELES

domingo, 3 de janeiro de 2010

Marcel Duchamp

A mortalidade flutua no ar, e todos aprendemos
que o tempo triunfa. Vivemos um intervalo e, então,
nosso lugar não mais nos reconhece.
HAROLD BLOOM

Santiago Rusiñol

Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai.

Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um

cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico.

Saõ tres os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e

noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz.

Porque a noite as usa fechadas, ao serviço do nada.

A tarde é felina criativa. Espreguiçando, mandriosa,

inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol,

em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se

vagarosa. E tomba, no desamparo do meio dia.



MIA COUTO - O FIO DAS MISSANGAS

Victor Brauner

(...) Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo
e pousa aos teus pés um candelabro cintilante.
Mas a paixão dura quanto tempo? Não importa.
O verdadeiro amor é suicida. O fundamental é saber
que ele acaba. O amor, para atingir a entrega total,
deve estar condenado - é a consciência da
precariedade do amor que possibilita mergulhar
de corpo e alma, vivê-lo enquanto morre e morrê-lo
enquanto vive. E é necessário que acabe como começou,
de golpe, entre soluços. E enxugados os olhos, aberta
a janela lá estão as mesmas nuvens rolando lentas
e sem barulho pelo céu deserto de anjos...
FERREIRA GULLAR