terça-feira, 29 de junho de 2010

Pierre Bonnard

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos -

um poço fitando o céu.




Fernando Pessoa

Michel Ogier

O visível à nossa volta parece repousar em si mesmo.

É como se a visão se formasse em seu âmago ou como se

houvesse entre ele e nós uma familiaridade tão

estreita como a do mar e da praia.

No entanto, não é possível que nos fundemos nele nem que

ele penetre em nós, pois então a visão sumiria no momento

de formar-se, com o desaparecimento ou do vidente ou do

visível. Não há, portanto, coisas idênticas a si mesmas, que,

em seguida, se oferecessem a quem vê, não há um vidente,

primeiramente vazio, que em seguida se abre para elas,

mas sim algo de que não poderíamos aproximar-nos mais a

não ser apalpando-o com o olhar, coisas que não poderíamos

sonhar ver "inteiramente nuas", porquanto o olhar as envolve

e as veste com sua carne.

MERLEAU-PONTY






Isaac Levitan

CANÇÃO PARA OS HOMENS DE INGLATERRA


Homens de Inglaterra, por quê lavrar
Para os senhores que vos derrubam?
Porquê tecer com esforço e cuidado
As ricas roupas que vestem os vossos tiranos?

Porquê alimentar, e vestir, e proteger,
Do berço até à sepultura,
Aqueles ingratos zângãos que
Exauririam o vosso suor como beberiam também o vosso sangue?

Porquê, Abelhas de Inglaterra, forjar
Tantas armas, grilhetas e chicotes
Se esses zângãos sem ferrão podem destruir
O produto forçado da vossa labuta?


PERCY B. SHELLEY

quarta-feira, 23 de junho de 2010