quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


"Homem: um animal tão perdido na contemplação voluptuosa
daquilo que pensa que é que se esquece de refletir sobre
aquilo que deveria ser. A sua atividade principal é o extermínio
dos outros animais e da sua própria espécie, que, no entanto,
se multiplica com tal rapidez que já infesta todo o mundo habitável."
 
 
Ambroise Bierce
 

"Como diz Whitehead, a natureza é uma coisa triste, sem cores,
sons nem fragâncias: todos seus atributos são puramente humanos.

Radical e inevitavelmente (mas, por que evitá-lo?), nossa visão do
mundo é subjetiva, e cada um de nós cria cores e músicas,
grosseiras ou delicadas, complexas ou simples,
conforme nossa sensibilidade, nossa imaginação e nosso talento." 


 
 
  Ernesto Sabato  -  O escritor e seus Fantasmas
 


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente



Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de novembro de 2014



"Se nossa vida tivesse um sentido e se desenrolasse sem dor,
nenhum de nós perguntaria por que o mundo existe
e por que ele é assim; tudo seria óbvio."


Schopenhauer


"Meu pessimismo jamais foi a concepção filosófica em afirmar que o mundo
é mais regido pelo Mal do que pelo Bem, tampouco um traço de caráter
que me faria ver tudo em negro, mas a ideia muito clara e, no fundo banal,
de que viver é sofrer no seio de um universo que não é um cosmo,
mas um caos. Neste aspecto, todo mundo é pessimista.
Cada humano sente intimamente a inconsistência e o absurdo
de sua existência, e sabe que ele é só uma mônada cósmica
entregue à dissolução de qualquer coisa."


Frédéric Schiffter

ESTRADA


Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho
manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.


MANUEL BANDEIRA

sábado, 4 de outubro de 2014


" Quanto mais exploramos e descobrimos, mais o volume de nossa ignorância
cresce, em vez de diminuir. Que ganhamos em matéria de conhecimento e
ação? Nada senão estarem abertos para nós novos horizontes de
conhecimento e de ação."
 
 
Constantin Noica
 







"O amor não rende juros. É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes, pois o amor é,
em energia material sobre o mundo, um roubo — apesar de, em sensações,
ser magnífico. 0 amor será útil internamente, mas externamente não carrega
um tijolo. Disso nunca tive dúvidas. A vida, é certo, não será um sítio excepcional
para as paixões. Nos países humanos, o amor mistura-se muito com palavras equívocas.
O fogo que existe numa lareira, por exemplo, é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa, que nos obedece. Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio. E o amor assim funciona.
Mas é preferível o contrário.  É desarranjo de estratégias e planos, surpresa ritmada,
uma ilegalidade exaltante que não prejudica os vizinhos. Mas atenção, de novo:
o amor não faz bem aos países, não desenvolve as suas indústrias, nem a economia.
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não.
No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor entre? Não é mercadoria
traficada em caixas, que as caixas são objectos que se abrem ao meio
— e é possivel, com uma lanterna, olhar lá para dentro.  0 amor não se vê como se
fosse uma presença. É demasiado completo para ter uma forma.
E como jamais se conseguiram obter juros de uma coisa que não ocupa espaço,
é preferível não, parece-me."
 
 
Gonçalo M. Tavares - "Uma Viagem à Índia"

sábado, 20 de setembro de 2014


"A conclusão evidente é que o amor e a amizade devem compreender toda a humanidade
e que devemos amar todos os nossos irmãos humanos sem discriminação.
Este mandamento não é novo. A nossa razão é perfeitamente capaz de compreender
a sua necessidade e a nossa sensibilidade é capaz de apreciar a sua beleza.
E no entanto, tal como somos feitos, somos incapazes de lhe obedecer."
 
 
 
Konrad Lorenz -  "A Agressão  - Uma História Natural do Mal"

"A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas.
Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados.
O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo.
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra.
São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da
descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade.
“Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo
e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado.
Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto
das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado
entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside.
O seu destino pertence-lhe."
 
 
Albert Camus (1913-1960)

PARÓDIA 


Que Manoel Bandeira me perdoe, mas
Vou-me embora de Pasárgada
Vou-me embora de Pasárgada
Sou inimigo do Rei
Não tenho nada que eu quero
Não tenho e nunca terei
Aqui eu não sou feliz
A existência é tão dura
As elites tão senis
Que Joana, a louca da Espanha,
Ainda é mais coerente
Do que os donos do país.

A gente só faz ginástica
Nos velhos trens da Central
Se quer comer todo dia
A polícia baixa o pau
E como já estou cansado
Sem esperança num país

Em que tudo nos revolta
Já comprei ida sem volta
Pra qualquer outro lugar
Aqui não quero ficar.
Vou-me embora de Pasárgada

Pasárgada já não tem nada
Nem mesmo recordação
E nem fome nem doença
Impedem a concepção
Telefone não telefona
Drogas são falsificadas
E prostitutas aidéticas
São as nossas namoradas.

E se hoje acordei alegre
Não pensem que vou ficar
Nosso futuro já era
Nosso presente já foi
Dou boiada pra ir embora
Pra ficar não dou um boi .
Dou quase nada, coisa pouca,
Somente uma vaca louca.
 
 
MILLÔR FERNANDES

quinta-feira, 28 de agosto de 2014


" A morte é uma mensagem; a morte fala;
o ato da morte possui sua própria semântica,
e não é indiferente saber de que maneira
um homem encontrou a morte, e em que elemento."
 
 
 
 
MILAN KUNDERA - " A Vida está em Outro Lugar"


 " A revolução e a juventude formam um par. O que a revolução pode prometer aos adultos?
A uns a desgraça, a outros seus favores. Mas esses favores não valem grande coisa,
pois só interessam à metade mais miserável da vida e trazem, junto com as vantagens,
a incerteza, uma exaustiva atividade e a perturbação dos costumes.
 
A juventude tem mais sorte: ela não é obliterada pelo erro e a revolução pode admiti-la
por inteiro sob sua proteção. A incerteza das épocas revolucionárias é para a
juventude uma vantagem, pois é o mundo dos pais que é precipitado na incerteza.
Oh, como é bonito entrar na idade adulta quando as muralhas
do mundo adulto estão desmoronando!"
 
 
 
Milan Kundera - A Vida está em Outro Lugar
Toulouse Lautrec
Em poltronas puídas, as cortesãs velhas,
Lívidas, pintadas, olhar terno e fatal,
Seduzindo e fazendo de suas orelhas
Cair um tilintar de pedras e metal;

Em redor do jogo, rostos encarquilhados,
Os lábios sem cor, as maxilas sem um dente,
Por febre infernal, os dedos congestionados,
Palpando a bolsa vazia ou o seio fremente;

Sob os sujos tetos uma fila de lustres
E de lamparinas, com a luz a projetar
Sobre as frontes medonhas de poetas ilustres
Que ali seus suores sangrentos vêm esbanjar;

Eis o negro cenário que em sonho noturno
Vi desenrolar-se sob meu olhar cioso.
Eu próprio, num canto do antro taciturno,
Me vi pensativo, frio, mudo, invejoso,

Invejando a paixão dessa gente obstinada,
Dessas velhas putas a fúnebre destreza,
Todos galhardamente dando-me a chapada,
Quer do seu orgulho, quer da sua beleza!

E meu coração assustou-se de invejar
Gente correndo p'ró abismo, alucinada,
E que, ébria do seu sangue, prefere cortejar,
Em suma, a dor à morte e o inferno ao nada!


Charles Baudelaire


 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014


A verdade é a beleza e a beleza é a verdade.
— É tudo o que há para saber, e nada mais.
John Keats
 

Às vezes penso na matéria para o livro a escrever como uma coisa que já existe:
pensamentos já pensados, diálogos já pronunciados, histórias já acontecidas, lugares e ambientes
já vistos; o livro não devia ser senão o equivalente do mundo não escrito traduzido em escrita.
Mas outras vezes julgo compreender que entre o livro a escrever e as coisas que já existem
só pode haver uma espécie de complementaridade: o livro devia ser a parte escrita do mundo
não escrito; a sua matéria devia ser o que não existe nem poderá existir senão quando for
escrito, mas cujo vazio o que existe sente obscuramente na sua imperfeição.
Vejo que seja como for, continuo a girar em torno da ideia de uma interdependência entre o
mundo não escrito e o livro que deveria escrever. É por isso que o escrever se me apresenta
como uma operação de tal peso que fico esmagado.
Ponho o olho no óculo e aponto-o para a leitora. Entre os seus olhos e a página voa uma
borboleta branca. Seja o que for que estivesse a ler, a verdade é que agora foi a borboleta a
prender a sua atenção. O mundo escrito tem o seu apogeu naquela borboleta.
O resultado para que devo tender é uma coisa precisa, íntima, leve.
Observando a jovem mulher na cadeira, deu-me uma necessidade de escrever a vista, ou seja
escrever não ela mas a sua leitura, de escrever qualquer coisa, mas pensando que tem de
passar através da leitura dela.
Agora, vendo a borboleta que pousa no livro. Queria escrever "a vista" tendo presente
a borboleta. Escrever por exemplo um crime atroz, mas que de algum modo se pareça com a
borboleta, que seja fino e leve como a borboleta. Poderia também descrever a borboleta mas
tendo presente a cena atroz de um crime, para que a borboleta se torne uma coisa assustadora.

Italo Calvino


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir
vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto
na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim
como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro 
 

sábado, 9 de agosto de 2014


“Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que
ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive
aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem.
O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual,
e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o
passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o
que não temos?

Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente,
que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa
pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo
em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o
homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias,
consistindo a perda no momento presente;
não se pode perder o que não se tem.”


MARCO AURÉLIO -   Pensamentos



“O soldado está convencido de que tem diante de si um espaço de
tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o
prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte.
Esse é o amuleto que preserva os indivíduos – e às vezes os povos
– não do perigo, mas do medo ao perigo; na verdade, da crença no
perigo, motivo pelo qual o desafiam em certos casos, sem que
sejam necessariamente bravos.”


Marcel Proust - À Sombra das Raparigas em Flor


Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

FERREIRA GULLAR

quinta-feira, 31 de julho de 2014


" Os livros são o único lugar do mundo em que dois estranhos
podem se encontrar em termos mais íntimos."


 
 
May Ziade - poetisa e ensaísta libanesa
 

"Aquilo a que chamam amor é bem pequeno, bem restrito, e bem fraco,
comparado à inefável orgia, à santa prostituição da alma que se dá toda inteira,
em poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar por vezes aos felizes deste mundo, nem que seja só para

os humilhar um instante no seu estúpido orgulho, que há felicidades
superiores às deles, mais vastas e mais delicadas.
Os fundadores das colônias, os pastores de povos, os padres missionários
exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida qualquer coisa destas
misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu gênio
constituiu, devem rir-se algumas vezes daqueles que os lamentam
pela sina tão revolta e pela vida tão casta."




Charles Baudelaire -  O Spleen de Paris
 


LEVEZA
 
 

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

  Cecília Meireles

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Paul Gauguin
" A concordância entre pessoas demais sobre coisas demais nunca
é um bom sinal. Significa quase sempre que estamos pensando pouco demais."


Lars Svendsen


“O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs;
mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação.
Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade
que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se.
Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante.
O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças,
quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de
modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida,
não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante,
elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas,
inalteradas. Elas sempre dizem: "Vamos de novo"; e o adulto faz de novo até
quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar
na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia.
É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo";
e todas as noites à lua: "Vamos de novo".
Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas
iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente,
mas nunca se canse de criá-las.
Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança;
pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”

Gilbert Keith Chesterton -   Ortodoxia

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Ter íntimo sentir, teu coração ardente.
Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Das-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.
Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
O' mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!
E há séculos mil, séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais numa luta selvagem,
Eternos lutadores ó irmãos implacáveis!
 
 

Charles Baudelaire

terça-feira, 8 de julho de 2014



" A História não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades e também das inquietações e angústias com que nos rodeia e cerca o tempo presente."
 
 
Fernand Braudel


"Todos os seres humanos têm fobias. A minha é bem especial.
Não diz respeito a um animal, nem a um lugar. Nem a uma atividade
ou a uma situação. Diz respeito a um som.

Minha fobia é por um som: o som horrível de um assobio. Sempre que
o ouço, ele me dá calafrios e meu coração dispara. Sempre que o ouço,
mesmo hoje, olho para o horizonte em pânico, para ver de onde a bomba
está vindo. Para ver, principalmente, se ela vai cair na minha cabeça,
ou na cabeça dos meus entes queridos. Simboliza para mim a espera
da morte. A aniquilação do futuro.

E aquele som horrível - por mais injusta que pareça essa declaração
- resume Beirute para mim.
Depois de tantos anos de treino e alienação, eu me acostumei à
sinfonia do combate, e me acostumei ao medo e à morte que a
acompanham.

Acostumei-me a tudo isso, quer dizer, exceto ao assobio."
 
 



EU MATEI SHERAZADE - Joumana Haddad

CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco
importa aonde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se
recorda. Quem de facto o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço
que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a
esperança e ligeiro despede-a. Ele é
preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem
que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro.
No grande meridiano onde inscreve o seu curso é
a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco
importa onde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se
recorda. Quem de facto o amou e de longe o
ilumina para que não caia?

René Char

quarta-feira, 2 de julho de 2014



" O universo tem, para além de todas as misérias,
um destino de felicidade.
O homem deve reencontrar o Paraíso".




Gaston Bachelard

" Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo. Ao longo dos anos, 
povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, 
de baías, de naves, de ilhas, de peixes, da habitações,
de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. 
Pouco antes de morrer, 
descobre que esse paciente labirinto de linhas
traça a imagem do seu rosto."


JORGE LUIS BORGES


As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo; mas só o que vive
Pode morrer. As palavras, após a fala, alcançam
o silêncio. Apenas pelo modelo, pela forma,
As palavras ou a música podem alcançar
O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio sempre estiveram lá
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
estalam e muita vez se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se
[ no lugar,
Não querem ficar quietas. Vozes estridentes,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Sem cessar as acuam. A Palavra no deserto
É mais atacada pelas vozes da tentação,
A sombra soluçante da funérea dança,
O clamoroso lamento da quimera inconsolada.


T.S.ELIOT

sábado, 14 de junho de 2014


Ode à Melancolia


"É que a Melancolia tem,
velada, o seu supremo santuário,
Embora só a veja aquele
cuja língua estrênua
Rebente a uva da Alegria
contra o céu da boca."
 
 


JOHN KEATS

" A realidade que nomeia a palavra civilização não se deixa definir com facilidade.
É a visão do mundo de cada sociedade, mas é também o seu sentimento do tempo:
há povos lançados para o futuro e outros que têm os olhos fixos no passado.
Civilização é estilo, a maneira que uma sociedade tem de viver, conviver e morrer.
Corresponde as artes eróticas e as culinárias; a dança e o funeral; a cortesia e a injúria;
o trabalho e o ócio; os ritos e as festas; os castigos e os prêmios; o trato com os mortos
e com os fantasmas que povoam os nossos sonhos; as atitudes diante das mulheres
e das crianças, dos velhos e dos estrangeiros, dos inimigos e dos aliados;
da eternidade e do instante; do aqui e do ali...
Uma civilização não é apenas um sistema de valores: é um mundo de formas e
de condutas, de regras e exceções. É a parte visível de uma sociedade
- instituições, monumentos, ideias, obras, coisas - porém é, sobretudo,
sua parte submersa, invisível: as crenças, os desejos,
os medos, as repressões, os sonhos."
 
 
 
OCTAVIO PAZ


“A gente não parte. Retoma o caminho, e carregando meu vício,
o vício que lançou raízes de dor ao meu lado desde a idade da razão,
e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta. 
A última inocência e a última timidez.
Está dito. Não levar ao mundo meus dissabores e minhas traições. 
Vamos! O ir, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem me alugar? Que animal é preciso que adore?
Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei?
Que mentira devo sustentar? Em que ânimo avançar? 
Antes de tudo, acautelar-se com a justiça.
A dura vida, o simples embrutecimento; levantar, com a mão seca,
a tampa do caixão, sentar, se asfixiar.
Assim nada de velhice nem de perigos: o terror não é francês.
Ah! Estou tão abandonado que ofereço à não importa que
imagem divina os impulsos para a perfeição.
Ó minha abnegação, ó minha maravilhosa caridade!
Aqui na terra, no entanto.
De profundis Domine, estou aparvalhado!”
 
 
ARTHUR RIMBAUD =  UMA TEMPORADA NO INFERNO


 
Rimbaud foi a criança rebelde e genial; o maldito poeta adolescente, capaz de mergulhar
nas profundezas das origens. O inocente sem medidas. “O maior de todos”,
segundo Vinicius de Moraes; a “vida inimitável” segundo Verlaine.
E por Henry Miller: ‘A última palavra do desespero, da revolta, da maldição.
A poesia tudo deve a Rimbaud. Até agora ninguém o superou em audácia e imaginação’.