terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Julien Dupré

O amor é uma tentativa de penetrar no íntimo de
outro ser humano, mas só pode ter sucesso
se a rendição for mútua.



Octavio Paz

John Waterhouse

Todo amor é amor a alguma coisa, que se deseja e que
nos falta. O amor não é completude, mas incompletude.
Não fusão, mas busca. O amor é desejo, e desejo é falta.
Mas só há desejo se a falta é percebida. E só há amor se
o desejo se polariza sobre determinado objeto. Comer
porque se tem fome é uma coisa, gostar do que se come,
ou comer do que se gosta, é outra coisa. Desejar uma
mulher, qualquer uma, é uma coisa. Desejar " esta mulher",
é outra. Estaríamos apaixonados, no entanto, se desejássemos,
de uma maneira ou de outra, aquele ou aquela que amamos?
Sem dúvida não. Se nem todo desejo é amor, todo amor é
desejo.


ANDRÉ COMTE SPONVILLE

Jiri Borsky

Vim coabitar com os homens
E tentei ser humana.
Em alguns, surpreendi a maldade
Piores que os maus, os imbecis
Não descansam, nem deixam descansar
E tenho lutado para não ficar indignada.
Há um instante em que não tenho mais nome,
Sou todos, também os que calaram.
Animais, plantas, flores são palavras.
E se clareiam em nós, seguem adiante.
Forte, imbatível a palavra, com ressurreições
Nos ossos da alma.
Com o Bem sou poliglota e renasço todos
Os dias, recoberta de eternidade,
Que são as peles das manhãs.


CARLOS NEJAR

domingo, 20 de dezembro de 2009

Kees Von Dongen

A juventude não foi mais que um temporal,

Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;

As chuvas e os trovões causaram dano tal

Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.



CHARLES BAUDELAIRE

Jules Lefebvre

Somos apenas uma sucessão de estados decontínuos com

relação aos códigos dos sinais cotidianos, e a respeito da

qual a fixidez da linguagem nos engana: enquanto

dependemos deste código, concebemos nossa continuidade,

embora aenas vivamos descontínuos; mas esses estados

descontínuos só concernem ao nosso modo de usar ou de

não usar a fixidez da linguagem: ser consciente é usá-la.

Mas de que modo poderemos jamais saber o que

somos quando nos calamos?


NIETZSCHE

John Whorf

Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.
Uma leva ao fim da mera estrada. Pára
Onde acabou.
Outra é a abstracta margem

......

No inútil desfilar de sensações
Chamado a vida.
No cambalear coerente de visões
[...]

Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho Deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim
[...]



FERNANDO PESSOA

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Edward Cucuel

Não mudamos nem permanecemos os mesmos.

Somos absolutamente livres e absolutamente prefigurados.



Merleau-Ponty

Jacek Yerka

É necessário um esforço permanente para vencer as ilusões dos

nossos sentidos. Para isto é preciso procurar conhecer.

O conhecimento é indispensável, mas não é simples, considerando

que até a ideia de simplicidade é também uma de nossas

invenções, um sonho, uma utopia.


A ilusão se situa no centro de nossa consciência, e é onde é

preciso "trabalhar". Trabalho árduo e persistente, porque o

conhecimento é difícil de adquirir - precisamos ser atraídos em

sua direção -, é difícil de manter - aprisioná-lo em convicções,

é um grave erro -, é extremamente árduo de ser desenvolvido,

já que nenhuma verdade está definitivamente inscrita em algum lugar.


Lu

Andre Masson

A pedra que no papel nem serve para desenhar

uma reta, dentro d'água faz círculos perfeitos.
Porque a mulher fica nua lhe damos um casaco de peles.
Sonhou que dizia: "Você é a moça dos meus sonhos".
O importante não é o relógio - são as horas.
Há gêmeos tão parecidos que o que não nos conhece

nos cumprimenta.


Não era mulher, era um modelo vivo.
O menino nasceu preto apesar de todo o esforço dos médicos.
O sacerdote deu uma topada e fez um silencio cheio de heresias.
Quando apertamos a campainha vem-nos sempre um certo

receio de que a casa vá para os ares.
Quando a igreja muda de padre parece que este

fala de um Deus novo.
A lavadeira põe o ferro em cima da roupa e o tempo passa.
De cem em cem mil anos o infinito faz um ano.
Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixinhas

de papelão e pedimos uma ligação para a infância.
Acreditar que não acreditamos em nada é crer na

crença do descrer.
E dito e feito, tudo foi dito e nada foi feito.
O ator encarna o papel, mas em compensação o açougueiro

empapela as carnes.
Há certos indivíduos que, por terem que botar no correio

uma carta urgente, ficam apressadíssimos.
Atravessou a sala com aquele ar orgulhoso dos

belos transatlânticos.
Quem não tem lenço se despede menos.
Quem mata o tempo não é um assassino. É um suicida.
A mulher do vizinho é sempre mais magra do que a nossa.
Não aceitou o emprego de motorista de ônibus porque

detestava coisas passageiras.
O morcego é o anjo do rato.
No espelho fazemos caretas para ver se somos bonitos.
Ter mais de vinte anos sempre nos pareceu uma injustiça.



Millor Fernandes

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Wasily Kandinsky

O conceito de gênio como semelhante à loucura tem

sido cuidadosamente alimentado pelo complexo de

inferioridade do público.


EZRA POUND

Jean Leon Gerome

Se eu tenho uma dor, eu não a abandono,

não fujo dela, quero alfabetizá-la,

senão ela corrói as outras lembranças,

adona-se do que não é dela, apossa-se

das alegrias que a antecederam e das

alegrias que estavam por chegar.

Mas há dores analfabetas, arrivistas, que

nos mostram o quanto a própria palavra

pode ser fútil e desnecessária, o quanto

os planos podem nos contrariar, o quanto

somos inexplicavelmente insignificantes.



FABRÍCIO CARPINEJAR

Joaquín Sorolla

Quando eu era menina, a verdade
parecia estar nos livros:
ali moravam as respostas
e nasciam os nomes.
Quanto mais procurei, mais me perdi
na trilha das indagações:
as respostas não vinham,
a verdade era miragem,
a busca era melhor que a descoberta,
e nunca se chegava.
Viver era mesmo sentir aquela fome.



LYA LUFT

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Edward Hopper

Se podemos nos deparar com um pensamento que

transcreva perfeitamente o nosso,

o prazer dessa cumplicidade

que vem de fora é dobrado.

A originalidade não passa de um prêmio secundário

do prazer do pensamento.

JEAN BAUDRILLARD

Elisabeth Nourses

Não procurem saber como se vê uma paisagem, componham um jardim.

Compreendam o erro estético de submeter tudo a uma lei: aplainar

entedia e enfeia, mundo sem paisagens, livros sem páginas, desertos.

Retirem as coisas belas, nada mais verão. Ver o espaço exige tempo,

não matem o tempo. Evitem o erro simétrico de contentar-se com o

fragmento. Compor exige uma tensão entre local e global, vizinho e

distante, narrativa e regra, a unicidadedo verbo e o pluralismo não analisável

dos sentidos. Visitem a paisagem. Subitamente, serão capazes de ver

ao mesmo tempo, a miniatura e o panorama.



MICHEL SERRES

Edward Cucuel

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças,
ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
compondo as cenas desta terra, movido pela
imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de
contemplação

desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos
e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver
as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense
na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade
das coisas visíveis.

CZESLAW MILOSZ - poeta lituano

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Joan Miró

Filosofar é passear com um saco e, ao encontrar

alguma coisa que sirva, pegar.


GILLES DELEUZE

Kay Sage

O espírito livre é aquele que pensa de modo diverso;

e em relação á verdade o que importa não é possuí-la,

mas o impulso que o faz buscá-la. Ele libertou-se da

tradição. Ele exige razões e não fé. O espírito cativo

assume uma posição por hábito e não pelas razões.

Habituar-se a princípios intelectuais sem razões é algo

que chamamos de fé. Como se forma o espírito forte?

De onde vem a energia, a força inflexível,

a perseverança com que alguém opondo-se à tradição,

procura um conhecimento inteiramente individual do mundo?



NIETZSCHE

Joaquín Sorolla

SENSAÇÃO DE VIVER


Que me enchas a casa de perfumes e de meias
de vidro e me quebres,
com as mais recentes bandas sonoras da vida,
o ritmo dos versos que trato de escrever,
isso posso compreendê-lo.
Compreendo
a arritmia na aritmética, o desprezo que tens
pelos Áustria, os corações vermelhos
na brancura virgem das tuas folhas,
as tuas primeiras dores de mulher,
compreendo isso tudo.
Mas não me provoques, minha filha:
não me tragas para casa tão doces miúdas de quinze anos
com olhos inexplicáveis, com olhares
ainda mais inexplicáveis. Diz-lhes que não pintem
os lábios ao meu espelho, que não te emprestem roupa.
Não metas no meu inferno esses diabos
que me tratam por senhor. Sê boa filha
e evita ao teu pai o duro lance
de morrer de amor pela tua melhor amiga.

PEDRO SEVILLA

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Regis Rigaux

Para onde vão os trens, meu pai? ....


tu podes ir e ainda que se mova o trem

tu não te moves de ti.



HILDA HILST

Pablo Picasso

Ninguém avança pela vida em linha reta.


Por vezes, saímos dos trilhos.


Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo

e desaparecemos como pó.


As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem

se sair do mesmo lugar.


No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem

aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver.


Alguns gastam um sem número de vidas no decurso

da sua estadia cá em baixo.


Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam

inelutávelmente para trás, atolados no caminho.


Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de

um homem é para sempre insondável.


É absolutamente impossível que alguém conte a história toda,

por muito limitado que seja o fragmento da

nossa vida que decidamos tratar.

HENRY MILLER

Peder Kroyer

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...


FERNANDO PESSOA

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

August Macke

Também ela é uma feiticeira. Mas enquanto Circe
transformava
os homens em porcos,
a arte transforma os animais em pessoas.




BALTASAR GRACIÁN

Andrew Wyeth

Há algo de, como direi, exultante, em colocar-se do lado da vida, em

vez de ficar do lado das ideias protetoras. Quando todas essas ideias

protetoras sobre a vida às quais você vem se apegando sucumbem,

você compreende que coisa horrível é isso, e você é isso. Esse é o

arrebatamento da tragédia grega. O que Aristóteles chamava de catarse.

Catarse é um termo ritual e representa a eliminação da perspectiva do

ego: destruir o sistema do ego, destruir a estrutura racional. Esmagá-lo

e deixar que a vida – boom! – surja. O ímpeto dionísico esmaga tudo.

E assim você se sente purgado do seu sistema egocêntrico de

julgamento, pelo qual está vivendo o tempo todo.



JOSEPH CAMPBELL

Lawrence Alma-Tadema

Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.



EUGENIO DE ANDRADE

domingo, 6 de dezembro de 2009

Alexandre Cabanel

É importante que eu seja luta, êxito,
fim e contradição dos fins.
Aquele que prevê a minha vontade
prevê também os caminhos tortuosos
que precisa seguir.
NIETZSCHE

Albert Moore

O mundo não vale o mundo,

meu bem.

Eu plantei um pé-de-sono,

brotaram vinte roseiras.

Se me cortei nelas todas

e se todas me tingiram

de um vago sangue jorrado

ao capricho dos espinhos,

não foi culpa de ninguém.

O mundo, meu bem, não vale

a pena, e a face serena

vale a face torturada.



DRUMMOND

Nós vamos ensinar a você o fervor. Nossos atos se

prendem a nós, como ao fósforo sua luz.

Nos consome, é verdade mas fazem nosso esplendor.

E se nossa alma valeu alguma coisa é por ter ardido

mais intensamente do que outras. Vamos ensinar a

você o fervor. Uma existência patética.

Não a tranquilidade. Ser tranquilo é ser trágico.

Eu não almejo outro repouso que o sono da morte.

Espero depois de ter exprimido nesta terra tudo o

que havia em mim, satisfeito morrer completamente.

Desesperado por fazer ainda mais.

Nossa vida há de ser diante de nós como um

copo de água gelada. O copo úmido nas mãos de

quem tem febre e quer beber, e bebe tudo de uma

vez. Sabendo que devia guardar, mas não podendo

tirar dos lábios o copo delicioso. Tão fresca é a água

E tão apaziguadora a sede.


ANDRÉ GIDE

Wilfredo Lam

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Hundert Wasser

Quem faz um poema abre uma janela.


MARIO QUINTANA

William Glackens

O homem começa por existir, isto é, o homem é de

início o que se lança para um futuro e o que é consciente

de se projetar no futuro. O homem é primeiro um projeto

que se vive subjetivamente, em vez de ser um musgo, podridão

ou couve-flor; nada existe previamente a esse projeto; nada

existe no céu inatingível, e o homem será em primeiro lugar

o que tiover projetado ser. Não o que tiver querido ser.

Porque o que entendemos ordinariamente por querer é uma

decisão consciente, e para a generalidade das pessoas,

posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir

a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isso é

manifestação de uma escolha mais original, mais

espontânea do que se denomina por vontade.


JEAN PAUL SARTRE

Frank Towsend

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

ALBERTO CAEIRO

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Emile Carr

Um poema é um mistério cuja chave deve

ser procurada pelo leitor.


Stéphane Mallarmé

Elisée Maclet

Mesmo o aventureiro mais ousado dificilmente se

ilude de que poderá cobrir cada metro quadrado

de terra desse globo misterioso.

Na verdade, o aventureiro autêntico chega à conclusão,

muito antes de ter alcançado o fim de suas andanças,

de que existe algo de estúpido na simples acumulação

de experiências maravilhosas.


HENRY MILLER

Edward Cucuel

Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!



Assim raia o passado, a luz de tanto dia,
Que brilha sem com raios fracos aquecer;
Noturna, uma tristeza vela para ver,
Distinta mas distante-clara-mas que fria!

BYRON

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Gilbert Tabric

Existe, para cada homem, alguma cena, alguma

aventura, algum quadro, que é a imagem de sua

vida secreta, pois a sabedoria fala primeiro

por imagens...


SHELLEY

Egon Schiele

... Uma decadência se abaterá... deverá surgir uma nova forma

de filosofia, que será concreta na expressão, e produto da

experiência imediata, não buscará consnso geral, fará pouco

de Deus e proclamará aquele bem que um homem pode

contemplar-se praticando-o, nenhum outro mais.

A decadência do mundo greco-romano foi grande, mas sugeria

bolhas de vida convertidas em mármore, ao passo que o que

nos espera, sendo democrático e primário, pode sugerir bolhas

num lago congelado - luz de estrelas matemática e babilônica...




WILLIAM YEATS

Edvard Munch

Que parem os relógios
cale o telefone.
Jogue-se ao cão
um osso e que
não ladre mais,
que emudeça o piano e
que o tambor sancione
a vinda do caixão com
seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo
acima e em alvoroço,
escrevam contra o céu
o anúncio: ele morreu
Que as pombas guardem
luto - um laço
no pescoço.
E os guardas usem finas
luvas cor-de-breu.

Era meu Norte, Sul
meu Leste, Oeste,
enquanto viveu,
meus dias úteis, meu
fim-de-semana
meu meio-dia,
meia-noite, fala e canto:
quem julgue o amor
eterno, como eu fiz,
se engana.

É hora de apagar
estrelas - são molestas,
guardar a lua,
desmontar o sol
brilhante,
de despejar o mar,
jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar
certo doravante.



W. H. AUDEN

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Dusanka Petrovic

Sejamos como o pássaro pousado por um instante

no ramo mais frágil, que sente tremer o galho

e no entanto canta, porque sabe que tem asas.

SULLY PRUDHOMME

Caravaggio

O poder físico sempre foi possível einsuficiente. Tinha-se que

dispor de poder sobre o espírito das pessoas a fim de impedi-las

de usarem a mente e o sentimento foi o elemento necessário para

a manutenção dis privilégios da minoria.

No entanto, a "elite" obrigada a controlar os "não escolhidos",

tornou-se prisioneira de suas próprias tendências destrutivas.

O guarda que vigia o prisioneiro torna-se quase tão prisioneiro

quanto este. Assim, o espírito humano, tanto dos dominadores

quanto dos dominados, desvia-s de sua finalidade essencial,

a de pensar e sentir humanamente, utilizar e ampliar as faculdades

de raciocínio e de amor inerentes ao homem e sem cujo

desenvolvimento total, ele se torna incompleto.



MICHEL FOUCAULT

Burne Jones

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.

Por que o havia de compreender?
Pois sim, mas também por que o não havia?
Águia do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...

Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outras cousa te põe separado?

Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indif'rença?
Por mim, só me levanto da barrica.



FERNANDO PESSOA

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Leonor Fini

Uma palavra bem pronunciada pode economizar
não só cem palavras, mas também cem pensamentos.

Jules Henri Poincaré

Max Pechstein

... seus passos ecoando na calçada me fazem pensar nos

caminhos que percorri e que se ramificam como os galhos de

uma árvore. Na obsessão de minha juventude, imaginava a vida

diante de mim como uma árvore.

Chamava-a então de árvore das possibilidades.

É só por um período curto que se vê a vida assim.

Depois, ela aparece como uma estrada imposta de uma vez por

todas, como um túnel do qual não se pode sair.

No entanto, a antiga imagem da árvores permanece em nós

sob a forma de uma indelével nostalgia.


A Identidade - MILAN KUNDERA

Paul Peel

O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra

Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.

Falávamos de coisas bobas,

Isto é, que a gente achava bobas

Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.

Crianças…

Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos

A não ser o azul imenso dos olhos dela,

Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,

Nem no cachorro e no gato da casa,

Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso

E a mesma animal - ou celestial - inocência,

Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:

Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.

Éramos um desejo de estar perto, tão perto

Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas

Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,

Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia

Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida….



MARIO QUINTANA

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Paul Signac

Aqui, com um filão de pão sob o ramo,
Uma garrafa de vinho,
Um livro de verso - e tu
Ao meu lado cantando no deserto -
E o deserto é agora o paraíso.

Omar Khayyam

William Hart

A vida para mim sempre pareceu uma planta que vive do próprio rizoma.


Sua verdadeira vida é invisível, oculta nele. A parte que aparece acima


do solo só dura um único verão e depois murcha - uma aparição efêmera.


Quando pensamos no crescimento e na decadência infinitos da vida e


da civilização, não podemos deixar de ter a impressão de uma absoluta


nulidade. Contudo, nunca perdi o senso de alguma coisa que vive e


permanece sob o eterno fluxo.


O que vemos é o botão, que se vai. O rizoma permanece.




CARL JUNG

Maurice Utrillo

MURO REMENDADO


Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que enfia bojos de terra gelada por baixo,
E derrama as pedras superiores ao sol,
E faz buracos onde até dois podem passar abraçados.
O trabalho dos caçadores é outra coisa:
Eu cheguei depois deles e fiz a reparação
Onde não deixaram pedra sobre pedra,
Mas conseguiram pôr a lebre fora do esconderijo,
Para deleitar cães latidores. As brechas, quero dizer,
Ninguém as viu fazer ou as ouviu fazer,
Mas na época primaveril dos arranjos encontramo-as lá,
faço o meu vizinho saber para lá da colina;
E um dia encontramo-nos para percorrer a linha
E assentarmos o muro outra vez entre nós.
Mantemos o muro entre nós enquanto avançamos.
A cada um as pedras que caíram para cada um.
E algumas são formas e outras são tão como bolas
Que temos de usar um feitiço para as equilibrar:
"Fica onde estás até voltarmos as costas!"
Ficamos com os dedos ásperos de as manipular.
Oh, somente outro género de jogo ao ar livre,
Um de cada lado. Mas vai mais longe:
Aí onde se encontra, nós não precisamos de muro:
Ele é todo pinheiros e eu sou um pomar de maçãs.
As minhas macieiras nunca atravessarão
Para comer os cones sob os seus pinheiros, digo-lhe eu.
Ele só me diz, "Boas cercas fazem bons vizinhos."A primavera instiga-me e pergunto-me
Se lhe posso despertar a razão:
"Porque razão fazem bons vizinhos? Isso não é
Onde existem vacas? Mas aqui não há vacas.
Antes de construir um muro eu inquiriria para saber
O que estaria a incluir ou a excluir,
E a quem era suposto ofender.
Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que o quer no chão”. Poderia dizer-lhe "duendes",
Mas não são duendes exactamente, e eu prefiro
Que ele o diga a si próprio. Vejo-o por ali,
A agarrar uma pedra com firmeza pelo topo
Em cada mão, como um antigo selvagem armado de pedras.
Move-se na escuridão e parece-me,
Não apenas a das florestas e a da sombra das árvores.
Ele não irá atrás do dito de seu pai,
Gosta de ter pensado naquilo tão bem
E diz novamente, "Boas cercas fazem bons vizinhos."


ROBERT FROST

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Adelio Sarro

As palavras nos permitiram elevar-nos acima dos animais;
mas é também pelas palavras que não raro descemos
ao nível de seres demoníacos.
ALDOUS HUXLEY

Richard Lindner

"Em arte não existe progresso. Baudelaire já afirmava isso.
Nessa trama, o sucesso e o fracasso não se molda a lá Capitalismo.
As palavras correm é mesmo na horizontalidade de sentidos.
Nada é vertical. Altura mesmo, só a do canto. E o canto é sem
paredes, não se fecha, abertura. Homero ou Dante, Cervantes
ou Kafka, qual o melhor? Impossível dizer. Talvez em arte tudo
seja colocação de problemas, vertentes, matizes, um olhar longo de
um ângulo ainda não visto. Desbravamento de territórios.
Horizontes. E sentir pela arte é sentir pelo outro, como o outro,
interseção entre almas. Linhas que se penetram. Horizonte que a
cada momento envereda para um continente.Grandes Sertões.
Tempos Perdidos. Cidades Invisíveis. Ulisses. Ondas. Processos.
Ventos Uivantes. Paixões. Ilíadas. Aprendizagens ou Prazeres.
Educações Sentimentais. Ficções. Estrangeiros. Náuseas.
Divinas Comédias. Círculos de Giz. Crimes e Castigos. Homens
sem Qualidades.Quixotes. Inomináveis.
Montanhas Mágicas.Metamorfoses... "

Auguste Renoir

UM VELHO EM VENEZA


Em Veneza, velho e envelhecido, quase mudo,
rodeado de livros, de solidão, de gatos,
o poeta Ezra Pound,
falou, num breve, muito breve encontro, com Grazia Livi.
Comentou-lhe, sem autocompaixão e sem desprezo,
secamente, com voz entrecortada:
«No fim penso que não sei nada.
Não tenho nada para dizer, nada.»
Se depois de tão alto exemplo, de tão clara sentença,
ainda continuo a escrever e risco palavras no fumo,
não é, que a morte me livre,
por bastardo interesse ou absurda vaidade,
mas apenas por uma simples razão,
porque não conheço outro meio, a não ser o suicídio
- desnecessário é um poema como um cadáver -,
para dar testemunho de nada a ninguém,
do mundo que contemplo, desta vida,
do seu horror gasto e quotidiano.
Que o velho Pound, na sua cova,
me perdoe por ligar o seu nome
a estas sórdidas palavras desesperadas.


JUAN LUIS PANERO

Henry Tuke

Literatura é educar para o avesso.

Quando educa para o conhecido, já é sermão.


FABRÍCIO CARPINEJAR

Francis Cadell