sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num
sentido verdadeiro. Que é o ideal senão a confissão de que
a vida não serve?O próprio viver é morrer, porque não
temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos,
nisso, um dia a menos nela.Povoamos sonhos, somos
sombras errando através de florestas
impossíveis, em que as árvores são casas,
costumes, ideias, ideais e filosofias.
GOETHE
Não haverá uma só coisa que não seja uma nuvem. São nuvens as catedrais de vasta pedra e bíblicos cristais que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia que muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de tua cara já é outro no espelho e o dia é um duvidoso labirinto. Somos os que se vão. A numerosa nuvem que se desfaz no poente é nossa imagem. Incessantemente a rosa se converte noutra rosa. És nuvem, és mar, és olvido. És também aquilo que perdeste.
Qual é o valor, para sobrevivência, da contração involuntária e simultânea de quinze músculos faciais associados a certos ruídos frequentemente irreprimíveis? O riso é um reflexo, porém único porque não serve a nenhum propósito biológico manifesto; poderíamos chamá-lo um reflexo de luxo. Sua únca função utilitária, pelo que se pode perceber, é proporcionar alívio temporário para as pressões utilitaristas. Na esfera evolucionista onde o riso emerge, um quê de frivolidade parece invadir sorrateiramente um universo sem humor governado pelas leis da termodinâmica ou pela sobrevivência dos mais aptos.
Levarás contigo meu último sopro de poesia; depois uma nuvem carregada de presságios funestos escurecerá a luz que nos foi concedida. Não foste um simples fulgor, chegaste inesperada, voz de salvação. Um som límpido os cristais emitem quando o vento os afloram, claridade fá-los esplender como incandescentes arco-íris, que iluminam em derredor. Ao redor o mundo descolora.
*** Vale a pena ler o original : Porterai com te l'ultima ventata di poesia; poi una nube gonfia di presagi funesti oscurerà la luce che ci fu concessa. Non fosti un semplice bagliore ,giungesti inaspettata, voce di salvazione. Un suono limpido emettono i cristalli quando il vento li sfiora, il chiarore li fa splendere come incandescenti arcobaleni che illuminano d'attorno. Intorno il mondo scolora.
A crise contemporânea é filosófica. A filosofia do individualismo liberal, bem como a redução coletivista das filosofias totalitárias, têm-se demonstrado incapazes de construir estruturas de vida que sejam realmente humanas. O fato fundamental da existência humana não é nem o indivíduo enquanto tal nem a coletividade enquanto tal. Ambas, consideradas em si mesmas, não passam de grandes abstrações. O indivíduo é um fato da existência na medida em que entra em relações vivas com outros indivíduos; a coletividade é um fato da existência na medida em que se edifica com unidades vivas de relação. O fato fundamental da existência humana é O HOMEM COM O HOMEM. E eis que a morte de uma filosofia individualista, bem como de uma filosofia coletivista, podem promover o nascimento de um futuro solidário, em que o homem viva COM o homem.
Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva espuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o sol aquece o espaço Do ar entre as nuvens escassas. Indiferente a mim e eu a ela, A natureza deste dia calmo Furta pouco ao meu senso De se esvair o tempo. Só uma vaga pena inconsequente Pára um momento à porta da minha alma E após fitar-me um pouco Passa, a sorrir de nada.
É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…
O que nós vemos das cousas são as cousas. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos Se ver e ouvir são ver e ouvir? O essencial é saber ver, Saber ver sem estar a pensar, Saber ver quando se vê, E nem pensar quando se vê Nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender E uma seqüestração na liberdade daquele convento De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas E as flores as penitentes convictas de um só dia, Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas Nem as flores senão flores. Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Se o poeta falar num gato, numa flor, Num vento que anda por descampados e desvios E nunca chegou à cidade... Se falar Numa esquina mal e mal iluminada... Numa antiga sacada... num jogo de dominó... Se falar naqueles obedientes soldadinhos De chumbo que morriam de verdade... Se falar na mão decepada no meio De uma escada de caracol... Se não falar em nada E disser simplesmente tralalá... Que importa? Todos os poemas são de amor!
Para Bergson há o tempo real: a duração; tempo que é mudança essencial e contínua; tempo que passa incessantemente modificando tudo e que constitui a própria essência da realidade psíquica. Porém, não é assim que percebemos a realidade; presos aos hábitos da inteligência e visando a nossa ação no mundo, percebemos a realidade como estática e passível de ser fragmentadas em partes que facilitam nosso agir no mundo. Temos, assim, uma concepção espacial da realidade, que olha o mundo do ponto de vista da extensão. A esta visão espacial da realidade, escapa o tempo real, que flui incessantemente em seu contínuo movimento, porque pensa o tempo nos moldes do espaço e, assim, concebe um tempo ilusório: o tempo "espacializado", originado da confusão que inadvertidamente se faz entre tempo e espaço. E a consciência, imbuída de representações espaciais, olha para si mesma e não se reconhece como duração pura, enxerga estados que se sucedem sem se penetrarem, não vê o eu no seu conjunto inter-relacionado, esquece o passado num lugar escondido sem relação com o presente, torna as sensações e os sentimentos unidades estanques sem movimento, concebe a imobilidade como substrato da realidade.
Pensou: 'Muito barulho à toa, por nada. Por nada'. Essa vida era–lhe dada à toa, ele não era nada e, no entanto, não mudaria mais. Estava formado. Tirou os sapatos e ficou imóvel, sentado no braço da poltrona, um sapato na mão. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. Bocejou. O dia estava acabado e acabava sua mocidade. Morais comprovadas já lhe ofereciam seus serviços. O epicurismo desabusado, a indulgência sorridente, a resignação, a seriedade de espírito, o estoicismo, tudo isso que permite apreciar, minuto por minuto, como bom conhecedor, uma vida malograda. Tirou o paletó, pôs–se a desfazer o nó da gravata. Repetia bocejando: – Não tem dúvida, não tem dúvida, estou na idade da razão.
Como se uma estrela hidráulica arrebatada das poças, Tu sim deslumbras, Por coroação: por regiões ativas de levantamento: por azougue da cabeça, Brilhas pela testa acima,Ceptro: potência – ah sempre que o chão crepitados charcos de ouro, E no corpo trancado a veias e nervos: o sangue que se afunda e faz tremer tudo, Tocas com um arrepio de unha a unha o mundo, Pontada que te abre e aumenta ou- onde se um troço dessa massa intestina: e como respirada: às queimaduras primitivas – Boca: sexo: vivezadas tripas: uma glândula que te move ao centro, Amadureces como um ovo, Na traça carnal: todo com um golpe com muita força para dentro
Herberto Helder - Portugal
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
A ciência é um enigma que renasce, uma solução que cria um problema.
GASTON BACHELARD
Não se pode dizer que já não há piedade, não, deuses do céu, nós não cessámos de falar nela. Simplesmente, já não se absolve ninguém. Sobre a inocência morta pululam os juízes, os juízes de todas as raças, os de Cristo e os do Anticristo, que são, aliás, os mesmos, reconciliados no "desconforto". Aquele que adere a uma lei não teme o julgamento que o reinstala numa ordem em que crê. Mas o maior dos tormentos humanos é ser julgado sem lei. Nós vivemos, porém, neste tormento. Uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada que esconder a serem obrigados a mentir, os que preferem mentir a não ter nada que esconder e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou?
O que de nós mais dura: só esqueleto que nos fez ósseos mais do que moluscos. O resto acaba tudo: quanto foi sentidos, vontade, amor, inteligência, carne, e sobretudo sexo, o sexo acaba e se desfaz na mesma pasta informe e fim de tudo que não é só ossos, apenas os detritos da armação mecânica de que se pendurou por algum tempo, em sangue e carne, o porque somos vida. E aquilo com que a vida se gozou ou por acaso vidas foram feitas, acaba como o mais – e os ossos ficam, dos deuses esburgados. Porque os deuses temem que sobreviva o sexo em de que morrem na liberdade de existir-se nele.
Se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrará se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar. Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver, se tu mesmo não os levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda a espécie, quanto houver de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente. Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.
Como pensar em ecologia sem incluir a preservação das palavras? E com a ecologia das palavras, quem se preocupa? E os lençóis subterrâneos da fala que são contaminados pelo sarcasmo, pelo cinismo e, sobretudo, pela indiferença, quem cuida de sua prevenção? Corremos o risco de perder a natureza quando deixamos que a linguagem fale em nosso lugar e não mais falamos por ela. Quando somente transferimos a responsabilidade de dizer e de nomear pelo ato de repetir. Não é o comportamento que condiciona as palavras. Mas as palavras formam o comportamento. As palavras são o comportamento. Somos palavras.
Ler corretamente é correr grandes riscos. É tornar vulnerável nossa identidade, nosso autodomínio. Na primeira fase da epilepsia, ocorre um sonho característico (Dostoievski nos fala sobre isso). De algum modo a pessoa se desprende de seu próprio corpo; ao olhar para trás, vê-se a si mesma e sente um súbito medo alucinante; uma outra presença está entrando em seu próprio ser, e não há caminho de volta. Sentindo esse medo, a mente busca um abrupto despertar. Assim deveria ser quando temos nas mãos uma importante obra literária ou filosófica, ficcional ou doutrinária. Pode vir a nos possuir tão completamente que, por um momento, permanecemos com medo de nós mesmos e em estado de imperfeito reconhecimento. Quem leu A Metamorfose de Kafka e consegue se olhar no espelho sem se abalar, talvez seja capaz, do ponto de vista técnico, de ler a palavra impressa, mas é analfabeto no único sentido que importa.
Responder a perguntas não respondo. Perguntas impossíveis não pergunto. Só do que sei de mim aos outros conto: de mim, atravessada pelo mundo. Toda a minha experiência, o meu estudo, sou eu mesma que, em solidão paciente, recolho do que em mim observo e escuto muda lição, que ninguém mais entende. O que sou vale mais do que o meu canto. Apenas em linguagem vou dizendo caminhos invisíveis por onde ando. Tudo é secreto e de remoto exemplo. Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo. E todos somos pura flor de vento.
"Por que será que o amor é imensamente mais rico do que qualquer outra possibilidade humana? Por que se mostra, aos que são tocados por ele, como um doce fardo? Porque nos transformamos naquilo que amamos sem deixarmos de ser nós mesmos. Gostaríamos, então, de agradecer à pessoa amada e não encontramos nada que seja suficiente para tanto. Só podemos agradecer através de nós mesmos. O amor transforma o agradecimento em fidelidade para conosco e em crença incondicional no outro. Dessa forma, o amor intensifica constantemente o seu segredo mais peculiar. A proximidade implica aqui a maior distância diante do outro. Essa distância não deixa nada desaparecer, mas nos lança ao seio da simples presença de uma revelação transparente, apesar de incompreensível. O coração nunca está em condições de dominar o despontar repentino do outro em nossa vida. Um destino humano entrega- se a um destino humano, e o ofício do amor puro/ casto é manter desperta essa entrega exatamente como no primeiro dia"
(Trecho de uma carta de Martin Heidegger a Hannah Arendt)
Seremos ainda românticos - e entraremos na densa mata, em busca de flores de prata, de aéreos , invisíveis cânticos. Nas pedras, à sombra, sentados, respiraremos a frescura dos verdes reinos encantados das lianas e das fonte pura. E tão românticos seremos, de tão magoado romantismo, que as folhas dos galhos supremos que se desprenderem no abismo pousarão na nossa memória - secas borboletas caídas - e choraremos sua história, - resumo de todas as vidas.
O muro da ignorância que impede tantos de se verem com clareza só pode ser atravessado pela comunicação. E a comunicação só funciona quando compreendemos as formas que ela pode assumir.
A abelha que, voando, freme sobre A colorida flor, e pousa, quase Sem diferença dela À vista que não olha, Não mudou desde Cecrops. Só quem vive Uma vida com ser que se conhece Envelhece, distinto Da espécie de que vive. Ela é a mesma que outra que não ela. Só nós ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! Mortalmente compramos Ter mais vida que a vida.
Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar onde ninguém vai.
Fernando Pessoa