Então se dissiparam as trevas noturnas, e a meus olhos foi dada a capacidade de discernir novamente a luz. Quando os céus estão prontos a adensar-se sob a ação dos ventos carregados de nuvens chuvosas, o sol se esconde e não mais se vêem as estrelas, e a terra é coberta pela noite: Mas eis que o vento boreal escapa de sua morada na Trácia e devolve ao dia sua luz. E de repente Febo, rodeado de esplendor, desce à terra e atinge com seus raios os olhos ofuscados. E dessa forma foram dissipadas as nuvens da tristeza; e fui iluminado pela luz celeste e recebi o discernimento para contemplar aquela face. E, mal dirigi o olhar a ela, reconheci minha antiga nutriz, que desde a adolescência freqüentava a minha mente: era a Filosofia.
De repente volta o que nem sei se foi sonhado ou vivido. Que apelo me chega desta voz que emerge de tão fundas águas? Alguém esquecido no fundo dos tempos? Meu anjo vencido? Meu duplo secreto? Que apelo indizível me chama, me grita que esqueça, que durma, ou me divida em tantos que nenhum seja eu? Nem eu, nem ninguém.
As coisas tristíssimas, o rolomag, o teste de Cooper, a mole carne tremente entre as coxas, vão desaparecer quando soar a trombeta. Levantaremos como deuses, com a beleza das coisas que nunca pecaram, como árvores, como pedras, exatos e dignos de amor.Quando o anjo passar, o furacão ardente do seu vôo vai secar as feridas, as secreções desviadas dos seus vasos e as lágrimas. As cidades restarão silenciosas, sem um veículo: apenas os pés de seus habitantes reunidos na praça, à espera de seus nomes.
Adélia Prado
terça-feira, 27 de outubro de 2009
"Nossa maior fraqueza está em que nossos desejos
se renovam sem cessar e sem cessar recomeçamos a vida"
Montaigne
Quem sabe respirar o ar forte de meus escritos sabe que é um
ar da altitude, um ar forte. É preciso ser feito para ele, senão
o perigo de se resfriar não é pequeno. O gelo está perto, a
solidão é descomunal — mas com que tranqüilidade estão
todas as coisas à luz! Com que liberdade se respira! Quanto
se sente abaixo de si! — filosofia, tal como até agora entendi
e vivi, é a vida voluntária em gelo e altas montanhas —
a procura por tudo o que é estrangeiro e problemático na
existência, por tudo aquilo que até agora foi exilado pela moral.
De uma longa experiência que me foi dada por andanças pelo
proibido, aprendi a considerar as causas pelas quais até agora
se moralizou e idealizou, de modo muito diferente do que seria
desejável: a história escondida dos filósofos, a psicologia de
A espantosa realidade das coisas É a minha descoberta de todos os dias. Cada coisa é o que é, E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, E quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo. Tenho escrito bastantes poemas. Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. Cada poema meu diz isto, E todos os meus poemas são diferentes, Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. Não me ponho a pensar se ela sente. Não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, Gosto dela porque ela não sente nada. Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. Outras vezes ouço passar o vento, E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; Porque o penso sem pensamentos Porque o digo como as minhas palavras o dizem. Uma vez chamaram-me poeta materialista, E eu admirei-me, porque não julgava Que se me pudesse chamar qualquer coisa. Eu nem sequer sou poeta: vejo. Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: O valor está ali, nos meus versos. Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa reposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito. Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que é pelas ações a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente.
Será que as aceitarão ? (i.é., estas canções). como tímida fêmea perseguida por centauros (ou por centuriões), Elas já vão fugindo, urrando de terror. Ficarão comovidos pelas verossimilitudes ? Sua estupidez é virgem, é inviolável. Eu vos imploro, meus críticos amistosos, Não saiais por aí procurando-me um público. Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos; os recessos ocultos Já têm ouvido o eco de meus calcanhares na frescura da luz e na escuridão.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que:que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes. Pois sei que- em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade -essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistirdos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
Que o verso seja como uma chave Que abra mil portas. Uma folha cai; algo passa voando; Quanto fitem os olhos criado seja, E a alma de quem ouve fique tremendo. Inventa mundos novos e cultiva a palavra; O adjetivo, quando não dá vida, mata. Estamos no ciclo dos nervos. O músculo pende, Como lembrança, nos museus; Mas nem por isso temos menos força: O vigor verdadeiro Reside na cabeça. Por que cantais a rosa, ó Poetas! Fazei-a florescer no poema. Somente para nós Vivem as coisas sob o sol. O Poeta é um pequeno deus.
Do mesmo modo que te abriste à alegria abre-te agora ao sofrimento que é fruto dela e seu avesso ardente. Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo e te perdeste nela e te achaste nessa perda deixa que a dor se exerça agora sem mentiras nem desculpas e em tua carne vaporize toda ilusão que a vida só consome o que alimenta.
" Crê-se que seja uma desgraça amar sem ser correspondido.
Mas quem for realmente grande compreenderá que o
verdadeiro amor não pode ser correspondido."
EMERSON
Fujam. Guardem o método ou os métodos reconhecidos como seguros, para caso de doença, miséria, cansaço. Partam novamente para a aventura. Explorem o espaço, mosca que voa, cervo acuado, viandante sempre expulso do caminho natural pelos cães de guarda que rosnam ao redor dos lugares confortáveis. Façam o olho brilhar em todas as direções, improvisem. Com a improvisação, a vista se surpreende. Considerem a inquietação uma ventura, a segurança, uma pobreza. Deixem o equilíbrio, o vazio do trilhado, percorram as baías de onde voam as aves. essa higiene da busca nos distingue das máquinas e nos aproxima do que o corpo sabe fazer. Mais que a mente, o corpo nos afasta do artifício. Se vocês t~em necessidade de vitória, de lugar previsto, de batalhas, bancos de dados ou instituições, sigam o método. A aventura fica para o tempo e a inteligência, a saúde do pensamento, liberdade, paz: criação de lugares imprevistos. Mas percorram os dois caminhos, não condenem nenhum; o amante de paisagens, às vezes precisa da auto-estrada.
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.
Caio Fernando de Abreu
O olhar desloca-se para as rosas que estão em primeiro plano, como se tivessem sido acabadas de colher. A mulher, porém, tem outras flores na mão; e obriga-nos a hesitar entre o pote de onde nascem as rosas e o colo em que pousam as flores. Trata-se de uma hesitação breve, porque logo o seu rosto leva-nos a divagar acerca da paisagem. Vemo-la ao fundo, num semicírculo que tem a forma perfeita do seio que o vestido esconde, e se poderia confundir com uma visão do paraíso se a mulher nos aparecesse como um anjo. Mas não tem asas; e o seu corpo empurra para longe a transcendência, mesmo que o seu rostos e perca numa vaga tristeza que as flores caídas acentuam. No entanto, se em vez desse mórbido acento me fixar no brilho das primeiras rosas, posso transferir a cor das pétalaspara cada uma das faces, e ela levantar-se-á com uma pose de anjo, transformando a paisagem, ao fundo, na imagem do paraíso.
E há paz no caos dos meus movimentos, pernas e braços sem equilíbrio, soltos, perdidos, desesperados. E há silêncio no rugido que me envolve, grave, constante, ensurdecedor. Há silêncio nas vozes, nas palmas (...) já não tenho dúvidas. Sou forte e sereno e imortal. Já não tenho dúvidas.
A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentiroso cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é tênue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas tênues e delicadas. Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for. A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso. Pelo menos ainda. Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração. Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pomos pedras ou palavras: sinônimo de construção. Ou destruição. Ou ação.
Ana Hatherly
O que faz abrir a boca é o aborrecimento;
O que faz mudar de posição é o mal-estar;
O que faz não se poder mexer, é o cansaço -
Nenhuma destas coisas é o tédio.
O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo,
O mal-estar se estar vivendo, o cansaço
de ter vivido.
O tédio é a sensação física da vacuidade
Prolixa das coisas.
É a vacuidade da própria alma que sente o tédio,
O que dói. O que sente tédio está preso
Numa cela infinita.
Mas os muros da cela infinita não nos podem
Soterrar, porque não existem;
Nem nos podem sequer fazer viver
Pela dor as algemas que ninguém nos pôs.
FERNANDO PESSOA
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
A razão é um sol severo: ilumina mas cega.
ROMAIN ROLAND
Do encontro de singularidades do contato de
universos pessoais, nasce uma gama inesgotável
de interpretações. Para existir, temos que ser
vistos, e somos visos de incontáveis maneiras,
resultantes das nossas interações com pessoas
diversas. É difícil enxergar alguém como um todo
harmonioso; vemos partes incompletas de cada
pessoa, que se mostram em cada situação específica.
Por isso, se quisermos cultivar boas relações, temos
que ter a sensatez de pesar qualidades e defeitos,
para não incidir no erro de avaliar "meia pessoa" e
A primeira vez que entendi do mundo alguma coisa foi quando na infância cortei o rabo de uma lagartixa e ele continuou mexendo.
De lá pra cá fui percebendo que as coisas permanecem vivas e tortas que o amor não acaba assim que é difícil extirpar o mal pela raiz.
A segunda vez que entendi do mundo alguma coisa foi quando na adolescência me arrancaram do lado esquerdo três certezas e eu tive que seguir em frente.
De lá pra cáaprendi a achar no escuro o rumo e sou capaz de decifrar mensagens seja nas nuvens ou no grafite de qualquer muro.
Os que amei, onde estão? idos, dispersos, Arrastados no giro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos...
E eu mesmo, com os pés também imersos Na corrente e à mercê dos turbilhões, Só vejo espuma lívida, em cachões, E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...
Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo esses que amei: vivem comigo,
Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem.
Antero de Quental
“Texto quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido
foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido
(a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa
de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento
perpétuo; perdido neste tecido – nesta textura – o sujeito se
desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas
secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos dos
neologismos, poderíamos definir a teoria do texto como
uma hifologia (hyphos é o tecido e a teia da aranha).”
Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar onde ninguém vai.
Fernando Pessoa