quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Como é que te chamas?"


Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por
comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas
as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e
futuros, são iguais. É partindo desse pressuposto que digo "nós".
Não o "nós" de apenas eu e tu, não o "nós" de país ou língua,
mas o "nós" meu, teu e deles, de países e línguas, de todos
aqueles que não nos estão a ouvir. E digo: nós temos um mundo
no nosso interior. Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que
fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi
identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma
consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por
chamar "caos" ou "alma" a esse mundo. Na fila do supermercado
ou numa esplanada, junho, acabamos por chamar-lhe
"pensamento". E mesmo durante o instante em que dizemos
essa palavra, "pen-sa-men-to", somos assaltados por uma
sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou
por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto,
misturado, em luta ou em harmonia.



José Luis Peixoto - escritor português

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